“A energia nuclear, é essencial”
Alberto Brum
A onda gigante que devastou o nordeste do Japão em 11 de março provocou mais do que um cenário de destruição poucas vezes visto e uma das maiores crises nucleares da história, que acrescentou a palavra Fukushima ao vocabulário dos desastres em usinas atômicas. Os efeitos do tsunami que inundou parte da usina japonesa atingiram em cheio a comunidade internacional e colocaram em debate a exploração da energia nuclear. A discussão também chegou ao Brasil com o anúncio de que o governo federal pretende construir novas usinas no país, que tem em funcionamento só Angra I e Angra II. Uma delas será no Nordeste, em dois pequenos municípios baianos. Chorrochó e Rodelas, no Vale do São Francisco, são candidatos a receber a obra. Em meio a polêmica, muito conversou com o Professor Alberto Brum, defensor da energia nuclear, ele afirma que as usinas serão fundamentais ao País e considera inviável a substituição da matriz energética pelas chamadas energias renováveis: “Dificilmente deixarão de ser periféricas em virtude da menor produtividade” . Mas defende novos padrões de segurança e critica obscurantismos no processo: “Não se pode construir nada se não tiver transparência”.
M- Antes do Acidente no Japão, governos dos EUA, china e países da Europa haviam anunciado investimentos na construção de novas usinas nucleares, como saída ecológica e econômica. Agora isso é questionado. O acidente mostrou que a energia nuclear é perigosa demais?
B- O acidente não fez nenhum país encerrar ou suspender seus projetos. Fizeram uma moratória, para ver os efeitos, o que realmente houve. As usinas do Japão são antigas tem mais de 40 anos. A tecnologia de hoje já é muito melhor, há novos materiais e novas técnicas. Por outro lado, tem o seguinte: se não for energia nuclear será o que¿ As pessoas falam em energias limpas, mas toda transformação de energia gera poluição, causa mal ao ambiente. A energia eólica, com aqueles grandes geradores em forma de catavento, têm efeitos deletérios. A velocidade das pás é quase supersônica, gera poluição sonora e ambiental. Por quê¿ Você só constrói usinas eólicas em regiões onde se tem um canal de vento, e nesses canais é onde há migração de pássaros. A mortandade de pássaros por causa dos movimentos das pás é gigantesca. Além disso, o regime de ventos não é constante e você precisa acumular energia. Usar acumuladores é complicado, pois eles necessitam de metais pesados e substâncias químicas, que cedo ou tarde, precisam ser descartadas. Mesmo a usina hidráulica, a hidroenergia, tem problemas seríssimos. Vc tem de inundar imensas áreas férteis, há um impacto gigantesco, migração dos peixes e putrefação da floresta, que gera uma quantidade enorme de metano e CO2. Dizem que poderíamos substituir por energia solar, mas não é bem assim. A energia solar é para alimentar uma casa, não é uma solução em larga escala. É importante¿ É. Mas criar milhares de hectares com painéis ou usar desertos também pode causar problemas no ecossistema, não preparado para conviver com o sombreamento dos painéis. É preciso entender que, de toda energia produzida no mundo, cerca de 60% a 70% são para alimentar parques industriais. Casas e iluminação pública, só consomem de 30% a 40%. A energia eólica, solar e por biomassa dificilmente deixarão de ser periféricas em virtude da menor produtividade. E com o desenvolvimento os países do BRIC- Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul vão precisar de muita energia nos próximos anos. Só energias alternativas não vão bastar.
M- Mas o acidente mostrou que é preciso rever os padrões de segurança.
B- É claro, isso é fundamental. Quando há a queda de um avião procura-se a caixa preta para descobrir qual foi a causa do acidente para outro avião não cair. Por mais doloroso que seja o acidente, com ele você pode dar um passo a mais na segurança. Na usina nuclear também. Os três grandes acidentes nucleares foram Three Mile Island (EUA, 1979), Chernobyl (Ucrânia, 1986) e, agora, Fukushima. No Japão o acidente não foi na usina propriamente dita, nem foi causado pelo terremoto, o problema foi o tsunami, que ultrapassou a contenção de oito metros de altura. A onda veio com 12 a 15 metros. O que o Japão vai fazer, abandonar a energia nuclear¿ O parque industrial japonês precisa dessa energia. Pensando no Brasil, se o País crescer de 5% a 7% ao ano como se planeja, vamos precisar de mais 10% a 12% de energia por ano. De onde vamos tirar essa energia¿ A potencialidade hidráulica do Sudeste, Sul e Nordeste praticamente acabou. Agora estamos estendendo até a Amazônia, e todos estão vendo os problemas ambientais, sociais, com os índios e a floresta. O regime de cheia dos rios será afetado. E a Amazônia não tem esse potencial todo, porque é uma região muito plana. Tem o que se está aproveitando: Jirau, Santo Antonio, Belo Monte. Virão outras, mas vai se esgotar!
M- Nesse cenário de escassez, a energia nuclear seria imprescindível?
B- A energia nuclear é essencial. O que precisa são três vertentes: interesse econômico, cuidado com o meio ambiente e segurança. E o qual o ponto mais importante¿ Segurança, segurança e segurança, sempre digo.
M- O que precisa melhorar nessa área?
B- Primeiro, as conseqüências de efeitos naturais. Segundo, quando vc contrói uma usina nuclear, não pode fazer como o Pólo Petroquímico de Camaçari ou de Cubatão (SP), onde deixaram fazer casas ao lado. É preciso ter as zonas de exclusão antes de acontecer alguma coisa, porque pode acontecer. Uma zona de exclusão de 30 a 50 Km, onde ninguém pode fazer casa ali, porque fazem uma vila e vira uma cidade. As usinas de Angra dos Reis não foram construídas no melhor lugar. Era uma época de ditadura, e o obscurantismo não permitiu que isso fosse discutido com a sociedade. Hoje nós vivemos numa democracia e vamos tentar discutir qual o melhor local e quando vamos necessitar da usina. As pessoas falam que a Bahia não precisa de usina nuclear, mas não é a Bahia, a usina nuclear é para a matriz energética nacional.
M- Na Bahia, os municípios mais cotados para receber uma usina são Chorrochó e Rodelas, no Vale do São Freancisco. O senhor considera essas áreas as melhores?
B- Não sei. São locais promissores, mas não quer dizer que devam ser ali. Tem de ter água de refrigeração, e o único lugar com água abundante é às margens do rio São Francisco. Perto do mar, já se viu, não dá. Como eu disse, isso tem que ser discutido com toda sociedade, cientistas, engenheiros. O importante é ter novos protocolos de segurança e saber que, para construir uma usina, é preciso 10, 15 anos. Nesse processo, só o projeto técnico leva anos para ser elaborado. Eu, particularmente, acho que a próxima usina nuclear no Brasil não ficará pronta antes de 2030. E só começara a funcionar em 2040, 2050, justamente quando o Brasil precisará da energia. Não se pode deixar a pesquisa para esse momento, tem que antecipar.
M- Mesmo com área de exclusão de 50 km, quem mora perto de uma usina nuclear tem algo a temer? E o lixo nuclear?
B- Não, não tem nada a temer. Acidentes podem ocorrer, mas as pessoas precisam estar bem instruídas sobre o que fazer. Existem em média 15 alertas por ano no mundo em usinas nucleares, e quase ninguém fica sabendo exatamente porque as pessoas estão informadas e o problema sob controle. O lixo nuclear coloca-se ao lado da usina, porque realmente não se sabe o que fazer. Hoje há processos de reaproveitamento, se consome ele de novo ou coloca-se em piscinas preparadas. O que não pode é jogar em qualquer lugar. Ninguém resolveu o problema do lixo nuclear, mas não é por isso que devemos descartar a produção de energia pela fissão nuclear.
M- Recentemente ficou-se sabendo que as usinas de Angra 1 e Angra 2 até hoje funcionam sem licença ambiental. Isso não é um indício de que alguma coisa pode dar errado, tendo como referência a maneira como as coisas funcionam no Brasil?
B- Até as vias de evacuação em Angra nunca foram feitas. Mas, isso é um problema político, não é problema técnico, da usina. Na ditadura, não havia preocupação ambiental. Mas, após tantos anos nunca tivemos problemas graves. As vezes ouvimos comentários de que o brasileiro é ignorante, que se ouve problema no Japão, o que não haveria no Brasil¿ Eu dou um exemplo claro, a Petrobras: nós já estamos retirando petróleo de águas profundas, o pré-sal. E aquela tecnologia ninguém nos deu, nós criamos. Isso está sendo feito com muita competência, e é perigosíssimo também.
M- O senhor deixa claro, que as usinas nucleares representam um risco. Vale a pena corrê-lo?
B- Vale. A usina nuclear pode causar problemas que podem perdurar por séculos, mas até hoje nada ocorreu de muito grave, a não ser na União Soviética, em Chernobyl, que foi uma irresponsabilidade. A cidade foi atingida porque o governo soviético, como fazem os governos da Coreia do Norte e do Irã, escondem tudo. Em Chernobyl, a população só foi informada 30 dias depois do acidente, quando já estava contaminada, e as seqüelas ficaram. Tem que ser diferente, o protocolo de segurança tem que ser claro, transparente. Uma coisa que se vê, é preciso reconhecer, é que a transparência não é muito grande nem nos países democráticos. Isso tem q mudar, tem que se buscar um novo paradigma de segurança. A transparência é fundamental, não se pode construir nada se não tiver transparência.//